Circunspecção nos dias de Lisboa
Já não me identifico com nada, sinto que nada me pertence, sinto-me presa e num constante palco, a fazer teatro com roupas que não são minhas...
Sinto-me ausênte, vazia e triste a todo o momento, choro intensamente e já desisti de procurar a razão.
Até que foi necessário olhar em volta, para tudo o que me rodeava. Estavam todos ocupados, a seguir uma rotina que nem eles mesmos percebiam, não havia ninguem que sorrisse sozinho, nem ninguem que de repente decidi-se mudar de trajectória.
No metro, na passagem da linha vermelha (em Saldanha) para a linha amarela (para o Rato), cerca de 70% das pessoas viravam à esquerda para subir as escadas, quando as da direita iam para o mesmo comboio, mas só algumas iam por aquela, pois as da esquerda já estavam cheias de pessoas...
Porque é que não se dividiam de igual forma para os dois lados?! Porque é que esperaram ver que o lado esquerdo enchia para seguirem para o direito vazio, sem subir de seguida para ele?
Pareciam cordeiros, a seguir o resto do grupo, sem pastor.
Então pensei... "Será que sentem o mesmo que eu? Esta angústia, esta solidão, esta auto-insatisfação?"
Ninguém no mesmo lugar que eu se sentiría assim, um currículo cheio de interesses já concretizados, notas altas e suficientes para a faculdade, prestes a tirar a carta e a ter mais liberdade, e a viver todos os dias com uma família acolhedora.
No entanto, dizem que quem menos tem, encontra-se feliz e satisfeito, pois não possui metas nem padrões para a felicidade.
Mas eu também não os coloco, e nunca conheci alguém assim...
Mas eu também não os coloco, e nunca conheci alguém assim...
Nos dias d'hoje, tudo me causa irritação ou frustração. As pessoas que conheco são limitadas áquilo que lhes dizem, acreditam apenas naquilo que aprenderam, e não pretendem evoluir mais.
Vivem presas à ciência, à astrologia, ao oculto, ou à religião... Mas nunca procuram descobrir novos horizontes para além desses mesmos.
Já se identificaram com eles, já sabem o que seguir da vida, já têm a vida toda planeada para o futuro. O problema não está na planificação dele mas sim em não deixar tempo nem espaço para mais objectivos, mais pessoas ou mais conhecimento.
Mas também não são mais felizes por isso, vivem presos a um pequeno problema - a sociedade.
Eu sou quem eu sempre quis ser, e eles apenas usam as roupas que sempre quiseram usar.
Estudo Sociologia, Psicologia e Astrologia, e segundo todas elas, eu devia ser um tipo de pessoa, agir de uma determinada maneira, etc. Isso é verídico para todos aqueles à minha volta, e a todos aqueles com um mapa astral semelhante ao meu (virgem+virgem+aquário)... Então PORQUE É QUE EU NÃO SOU ASSIM?
Sinto-me diferente a todos os outros, sinto que tenho outra missão, outros objectivos mas não os encontro.
Sinto que todos aqueles que me conhecem ficam iguais a mim, mas não durante muito tempo.
Dou-me bem com todo o tipo de pessoas, mas só me sinto verdadeiramente ligada áqueles que são iguais a mim, mas não os consigo encontrar.
Só tenho a certeza de quem sou quando é necessário afirmar-me perante uma cultura, ou em tempos de perigo. Mas quando estou no silêncio, sinto medo.
Sinto que por todas as viagens que faça, nunca serão suficientes, e que nunca estarei satisfeita comigo mesma.
Eu desenvolvi sonhos e concretizei-os. O cinema, a psicologia e a sociologia. Mas foram apenas padrões, foram apenas o plano-base para ter alguma coisa que fazer neste mundo.
Estes sonhos criados estão a desmoronar-se, e eu não quero ficar só comigo mesma...
Vivo num tempo constante, em que preciso de ter amigos, e ficar rodeada de pessoas, só porque tenho medo de ficar sozinha... quando o único medo que uma adolescente devia ter, era o de «não ter futuro».
A minha pergunta não é "porque é que sou diferente", porque eu sempre quis ser diferente...
A minha pergunta é... "porque é que os outros são tão diferentes de mim?" quando deviam ser iguais, por serem influenciados pelos mesmos factores, e possuírem o mesmo mapa astral?






























